#171 Estou envelhecendo
E aprendendo a gostar da mulher que estou me tornando
A velha que eu quero ser
Hoje fui me inscrever num curso de espanhol.
Enquanto esperava ser chamada, pensei na mulher de 90 anos que quero ser…
Coordenadas
Por onde ando nesse mundão?
📍 36°37’25.0”N 4°30’33.5”W
A carteirinha amarelada de 1962
Nela, minha bisavó aparece como “colaboradora” de uma cruzada cívica. O papel está gasto nas bordas. O carimbo ainda firme. O retrato pequeno mostra uma mulher de 50 anos, o olhar sério, o corpo já assentado no mundo.
Aos 50, ela parecia idosa, mas não estava fora do tempo. Estava engajada nele. Inscrita. Participando de um Brasil que fervia.
Hoje sou um pouco mais velha que ela nesta foto, mas aos 50 tenho um vídeo descendo uma duna, numa prancha improvisada, rindo antes da queda, com areia nos cabelos e o corpo disponível para o desequilíbrio.
Entre a carteirinha de 1962 e o vídeo no celular existe menos de um século.
E uma expansão silenciosa do que significa envelhecer.
Mulheres da minha linhagem
Minha mãe se casou de noiva aos quase 54 anos. Havia brilho no olhar e festa nos gestos. A vida seguia em movimento e a idade fazia parte da cena com naturalidade.
Minha avó, aos 77, estava em Natal pedindo ao motorista do buggy uma volta “com emoção”. Queria sentir o vento, a velocidade, o frio na barriga. A idade não reduzia o desejo de experiência. Ele seguia ativo, curioso, vivo.
Essas mulheres não sabiam que existiriam termos como perennials. Não sabiam que alguém um dia daria nome às pessoas que atravessam décadas mantendo curiosidade, interesse, vontade de aprender. Eu gostei dessa palavra quando a ouvi pela primeira vez lá em 2016. Ela falava de permanência, de vitalidade que não se rende à cronologia.
Durante muito tempo me reconheci ali. Continuo me reconhecendo.
Novos velhos
Quase dez anos depois, outro termo começou a circular: Nolt1. E já está sendo amplamente usado por aí. Não carrega peso, mas movimento. Uma nova forma de ocupar o tempo depois dos 60, depois dos 70, depois do que quer que venha. Mulheres (e homens!) que acumulam histórias e ainda assim reservam espaço para o inédito.
Estive recentemente na Suécia com uma Nolt: minha tia, irmã da minha mãe. Sessenta e cinco anos.
Passeamos em Estocolmo, Gotemburgo, entramos em lojas, escorregamos no gelo, brincamos na neve como se o inverno tivesse sido inventado naquela semana.
A idade não desaparece. Ela se incorpora.
Expansão
Envelhecer hoje carrega outras possibilidades. Mais tempo de vida, mais acesso, mais escolhas, mais deslocamentos. Ainda há desigualdade, limites, contextos que apertam. Mesmo assim, algo se expandiu.
Na minha linhagem, a velhice deixou de ser encerramento e passou a ser continuação.
Enquanto estava na sala de espera do curso com a ficha na mão, pensando na mulher que eu quero ser, concluí que quero:
Que ela tenha assunto.
Que ela reconheça palavras em outra língua.
Que continue curiosa, atravessando estações com a mesma disposição com que desceu aquela duna.
DNA
Olhando a foto da carteirinha de 1962, sinto que faço parte de uma sequência. Minha bisavó inscrita no seu tempo. Minha mãe vestida de noiva aos 54. Minha avó pedindo velocidade aos 77. Minha tia atravessando o inverno sueco com riso e disposição.
Cada uma viveu a idade que tinha com o que estava ao alcance.
E vale lembrar que minha mãe me mandou um vídeo tocando piano, semana passada. É autodidata aos 72 anos.
Dias atrás, em Estocolmo, nos momentos de descanso, minha tia que é fluente no sueco, aprendia inglês em seu tablet.
Eu vivo a minha vida assim: curiosa e em movimento, porque “tenho a quem puxar”.
Minha “eu” do futuro
Na sala de espera, imagino suas mãos mais finas segurando um livro em outra língua, talvez já gasto de tanto abrir e fechar. Imagino sua memória puxando palavras aprendidas agora, misturando sotaques das cidades que atravessei, lembrando aeroportos, estações de trem, mapas dobrados dentro da bolsa. Imagino seu olhar ainda interessado no mundo, reconhecendo paisagens que viu um dia e outras que ainda pode descobrir, mesmo que seja pela janela, mesmo que seja pelas páginas.
…
Estou envelhecendo. E isso deixou de soar como aviso.
Agora me desculpe, chegou a minha vez na fila para o curso de Espanhol.
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Alta capacidade, adaptação excessiva e o que acontece quando o sistema não desliga
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Ensaios sobre a Coragem
Obrigada por caminhar comigo, uma história de cada vez.
Te vejo na próxima semana!
New Older Living Trend - Termo surgido em setembro de 2025 nos EUA, originalmente em contexto imobiliário ("Nova Tendência de Moradia para Idosos"), mas ressignificado no Brasil em novembro de 2025 como movimento de envelhecimento ativo. Essa nova geração está redefinindo o que significa envelhecer no século XXI.






Que família maravilhosa de mulheres aventureiras (no bom sentido) e inteligentes!! Você teve a quem puxar, Dea!
Um beijo
Lindo texto! É muito curioso habitar um corpo de 63 anos e carregar uma mente cheia de vontades e interesses. Admiro muito esta força de viver, esta disposição em experimentar, conhecer lugares, pessoas. Isso é ser cheia de vida! Tô assim tbm🤗