#172 Attraversiamo
Vinte anos depois de "Comer, Rezar, Amar"
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E aprendendo a gostar da mulher que estou me tornando
Antes da Travessia
Em 2006 eu era mãe, esposa e funcionária pública. A vida seguia com a previsibilidade confortável de quem sabe o que vai acontecer às sete da noite: mesa posta, compromissos anotados na agenda e a sensação de que tudo estava no lugar.
Foi nesse mesmo ano que Comer, Rezar, Amar começou a circular pelo mundo. Eu li a história de Elizabeth Gilbert folheando um mapa que ainda não pretendia usar. Gostei da escrita direta, da exposição das dúvidas, da decisão de cruzar oceanos para reorganizar a própria história. A palavra attraversiamo me acompanhou desde então. Soava ampla, aberta, quase maior do que o cotidiano que eu habitava.
O desejo de viajar tinha o tamanho de uma mala vazia guardada no alto do armário. Permaneceu ali por doze anos, amadurecendo em silêncio, acompanhando o crescimento dos filhos, as mudanças de fase, os ciclos que se encerram sem espetáculo.
Coordenadas
Por onde ando nesse mundão?
📍 36°37’25.0”N 4°30’33.5”W
Vou passar uma temporada mais longa em Andaluzia. Por isso, as próximas edições não terão coordenadas específicas, a menos que eu esteja em movimento desbravando a região.
Itália
Em 2018, a mala finalmente desceu do armário e a viagem deixou de ser hipótese para se tornar passagem comprada. Não era bem uma viagem para a Itália, mas uma escala longa, o que eu chamo de alegria de pobre. Nesse primeiro pouso eu tive a oportunidade de comer uma pizza, tomar um gelatto e visitar o Coliseu. Foi um ótimo combo.
No mês seguinte eu mudaria para a Inglaterra e Itália seria novamente contemplada com a minha visita. E dessa vez ela teve o verdadeiro sentido de attraversiamo, como no livro: eu deixava para trás minha versão antiga, cheia de angústias, e cruzava para uma versão que ainda não conhecia.
Somente na minha terceira viagem, um mochilão que começou na Sicília e terminou em Milão, que visitei a pizzaria famosa do livro.
Entrei na L’Antica Pizzeria da Michele, em Nápoles, e pedi duas pizzas convencida de que estava solicitando duas fatias. O atendente retornou com duas pizzas inteiras, redondas e impecáveis, cada uma custando cinco euros. Olhei com cara de espanto e riso contido, pensando com quem eu iria dividir. Levei para o hostel. A pizza não tinha nada de simbólica. Molho de tomate, massa leve e o prazer muito concreto de estar sozinha em outro país. Mas confesso que não se compara com nenhuma outra pizza no mundo.
Essa viagem não incluiu curso de italiano. Pelo menos “não, ainda”. Mas pude ampliar meu território interno sem desmontar o que já existia.
Voltei à Itália outras vezes. Contei quatro no total. A travessia se tornou uma prática recorrente.
Mumbai, Índia
Em 2022 viajei ao Nepal, e foi ali que a curiosidade pela Índia ganhou contorno mais definido. O Nepal me apresentou uma espiritualidade que convivia com montanhas, bandeiras de oração e uma presença constante de rituais no cotidiano. A experiência me despertou interesse. A proximidade geográfica tornou natural estender a viagem, atravessar a fronteira e ampliar o repertório.
Passei alguns dias em Mumbai. A cidade impôs um ritmo parecido: trânsito intenso, prédios espelhados, mercados movimentados e uma energia urbana que reorganiza qualquer expectativa simplificada sobre o que se chama de Oriente. Mumbai não cabe em categorias fáceis. Ali convivem tradição religiosa, cinema, mercado financeiro, informalidade e tecnologia. Caminhar por suas ruas exige atenção plena que nada tem de contemplativa.
Do Nepal levei perguntas. Em Mumbai, levei um choque de realidade.
Rishikesh
No ano seguinte, mesmo depois de prometer nunca mais voltar à Índia, voltei. Quebrei a promessa duas vezes, a primeira visitando Nova Delhi e a segunda, me matriculando num curso de Yoga em Rishikesh, no norte do país.
O espaço tinha disciplina, horários definidos, refeições simples servidas em silêncio parcial. As práticas eram apresentadas com seriedade e contexto histórico. Chakras, pranayama, meditação, princípios ayurvédicos apareciam ali com nomes próprios e raízes antigas, ainda que muitos desses conceitos já fizessem parte do meu repertório adquirido no Ocidente.
O que se tornou evidente é que práticas espirituais não existem isoladas do mundo que as produz. Fora dos muros do ashram, a Índia seguia contraditória, comercial, sagrada, cotidiana. A espiritualidade não estava apartada da vida; circulava com ela. O curso terminou, houve aprendizado, aprofundamento e uma compreensão mais ampla das camadas históricas que sustentam aquilo que, no Ocidente, frequentemente aparece em formato simplificado.
Voltei com a percepção de que aquilo que eu estudava há anos tinha história, linhagem e também adaptações contemporâneas.
Bali, Indonésia
A Indonésia foi o último destino dessa sequência, embora eu não tivesse planejado repetir a ordem do livro. Itália, depois Índia, e por fim Bali. A cronologia se organizou sozinha, como se certas geografias insistissem em se alinhar sem roteiro.
Cheguei a Bali com menos perguntas e mais disposição para observar. A ilha já não é descrita apenas por templos e arrozais; ela se apresenta com cardápios veganos bilíngues, estúdios de yoga climatizados, retiros de wellness anunciados em inglês impecável e cafés que poderiam estar em qualquer capital ocidental. Em meio a essa paisagem, há oferendas diárias no chão, incensos acesos nas portas das casas e cerimônias que seguem seu curso independentemente da presença de visitantes. O sagrado e o mercado compartilham a mesma rua sem conflito aparente.
Descobri, por acaso, que estava hospedada ao lado do hotel onde Elizabeth Gilbert se hospedou. Soube disso por um guia local; a recepcionista não demonstrava qualquer interesse especial pela história literária que atrai tantos estrangeiros. Pedi para visitar as instalações e entrei no hotel com a naturalidade de quem visita um cenário curioso e fotografei o espaço inteiro. Não havia ali nenhum vestígio de misticismo, apenas arquitetura bem cuidada, piscina e um restaurante.
Procurei informações sobre Ketut, o curandeiro retratado no livro, movida por curiosidade histórica. Ele havia morrido em 2016. A ausência dele parecia dizer mais sobre o tempo do que qualquer ensinamento. Lugares continuam, personagens se vão, e a narrativa turística se reorganiza.
Bali oferece hoje uma espiritualidade organizada para ser consumida com conforto: pacotes de retiro, massagens ayurvédicas, aulas de meditação com vista para a piscina, uma Starbucks estrategicamente posicionada para atender à demanda de quem busca simultaneamente transcendência e latte. A convivência entre tradição e mercado não causa escândalo ali; faz parte da engrenagem contemporânea da ilha.
Durante um almoço no restaurante Wayans, um homem árabe puxou conversa e, em poucos minutos, ofereceu carona para o hotel, convite para jantar e pedido de telefone. Recusei com três respostas claras, ditas com a serenidade de quem não precisa transformar cada encontro em possibilidade. Diferente do livro, Bali não era cenário para romance na minha história. Era espaço de descanso, de observação e de interação despreocupada com os macacos que circulam pelos templos, pelas ruas e pela varanda do hotel.
Vinte anos depois
Ao longo desses vinte anos, aprendi a observar com mais atenção a frase “largar tudo”. Ela raramente é simples. Viajar por meses, reorganizar a vida a partir de uma ruptura pública, deslocar-se entre continentes em busca de reinvenção exige condições materiais muito concretas: tempo disponível, recursos financeiros, passaporte que abre fronteiras, alguém que sustente o que permanece.
Para muitas mulheres, a decisão de partir envolve negociações silenciosas. Filhos, trabalho, responsabilidades compartilhadas de forma desigual, expectativas sociais que continuam operando mesmo quando não são nomeadas. Nem toda travessia assume a forma de gesto espetacular. Algumas acontecem quando a estrutura permite respirar um pouco mais.
Eu não larguei tudo de uma hora para outra. Esperei que a vida abrisse intervalos. Atravessar, no meu percurso, foi ampliar território sem desmontar a própria estrutura.
Duas pizzas inteiras em Nápoles. Dias disciplinados em um ashram. O trânsito de Mumbai. Um hotel vizinho de best seller. Macacos em Bali. Três recusas ditas com serenidade.
A palavra attraversiamo atravessou vinte anos. Eu a encontrei quando era possível fazer minha própria travessia.
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É laboratório vivo, mesa compartilhada, gente que cruza meu caminho e me devolve a mim mesma.
Escrever sobre isso com honestidade, profundidade e uma pitada ocasional de acidez também é trabalho.
Um trabalho que eu escolhi manter aberto e caminhante, assim como eu.
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Ensaios sobre a Coragem
Obrigada por caminhar comigo, uma história de cada vez.






Gosto muito de te ler, Andrea! Me sinto muito identificada e familiar, ainda que não tenha vivido as suas experiências.
as palavras sempre nos encontram no momento certo. 😊