#174 Não é possível
O mundo acontecendo fora da minha previsão
Edição Anterior
Memórias de alguns dias entre meninos talibés em Dakar
Não é ficção
Eu já disse “não é possível” em muitos lugares do mundo.
É uma reação imediata antes de qualquer tentativa de entender o que está acontecendo.
Hoje trago dez relatos curtos, historinhas reais de viagem. Acredite, se quiser.
Israel
Seis da manhã num hostel em Tel Aviv.
O celular de uma hóspede tocava no soneca havia uma hora. Uma hora.
Eu disse para outra hóspede que ia reclamar na recepção. Ela me olhou com a expressão de quem já sabe o fim da história, porque ela tinha reclamado no dia anterior.
O rapaz da recepção tinha respondido que, se ela quisesse privacidade, poderia alugar um quarto privativo.
Fiquei quieta.
Não é possível!
Roma
Éramos oito pessoas e precisávamos chegar ao aeroporto. Nenhum taxista queria nos levar. Nenhuma van estava disponível perto do Coliseu. Era a final do campeonato de futebol.
Oitenta euros por corrida, recusados. O jogo valia mais.
Acabamos dividindo o grupo em dois táxis que aceitaram a missão como se estivessem nos fazendo um favor.
Não é possível!
Nepal — Retiro de Yoga
Eu tentava fazer as poses.
A professora circulava pela sala em silêncio. Em algum momento, sentou ao meu lado, se aproximou do meu ouvido e sussurrou:
Agora respire e contraia todos os músculos do ânus.
Eu nunca tinha pensado naquele músculo na minha vida. O yoga pensa em tudo.
Não é possível!
Tailândia — A pizza
Em Pai, no norte da Tailândia, descobri que voltar para o hostel não era exatamente uma garantia. Não havia transporte público. Mototáxis precisavam ser combinados com antecedência. Eu não tinha combinado nada.
Eram oito e meia da noite. Entrei num restaurante para perguntar o que fazer. A dona sugeriu um motoboy que estava sem entrega.
Ele topou. Paguei como se paga uma encomenda e atravessei a cidade como uma pizza.
Não é possível!
Tailândia — A caverna em Krabi
Numa ilha, entrei numa caverna cheia de oferendas.
Não eram flores nem incenso. Eram esculturas fálicas de todos os tamanhos possíveis.
Havia uma lógica, uma devoção, um sistema simbólico inteiro que eu não acessava. Ainda assim, a primeira reação veio antes de qualquer respeito antropológico:
Não é possível!
Kenya — O Maasai
O guia mencionou que havia uma caverna perto das crateras de Nakuru. E que dentro dela vivia um Maasai de verdade: nômade, tradicional, do jeito antigo.
Eu fui.
Quando olhei lá de cima, antes mesmo de descer, já dei de cara com ele. Roupa tradicional, chapéu colorido, bastão de madeira numa mão.
Smartphone na outra.
Ele nos recebeu bem. O telefone continuou lá.
Não é possível!
Kenya — O pedido
Eu estava assistindo a um casamento.
Não era um convite, era curiosidade. Vi a cerimônia acontecendo num espaço semi-aberto, pedi pro guia perguntar se eu poderia ficar. Deixaram.
Em algum momento, um homem se aproximou. Disse que eu era exatamente o tipo de mulher que ele procurava. O tipo de esposa que ele queria.
Ele já era casado. Eu seria a segunda.
Não nos conhecíamos. Ele tinha me visto. Era suficiente.
Não é possível!
Sérvia
Cheguei antes do check-in e fiquei parada na porta do hostel, sem ninguém atender.
Liguei. Disseram que já estavam vindo.
Quando a porta abriu, o homem de quase dois metros tinha um olho profundamente roxo. Nada discreto e bem recente.
No dia seguinte, entendi: os dois sócios tinham brigado no fim de semana. Resolvido no braço. Um deles era lutador.
Um sérvio e um croata sócios num hostel. Sérvia e Croácia não são exatamente vizinhos amigáveis. Nunca tinha visto essa combinação.
Era a primeira vez naquele hostel e provavelmente a última.
Não é possível!
Nepal — O corpo
Vi um corpo sendo levado até o rio. Molharam os pés. Esperaram. Se houvesse movimento, não estava morto. Se não houvesse, seguiam para a cremação.
Fiquei olhando o tempo passar sobre um corpo imóvel como se a morte ainda precisasse de alguma confirmação.
Não é possível!
Estados Unidos
Na imigração, me perguntaram sobre a passagem de volta. Eu não tinha.
Expliquei que seguiria para a Colômbia e mostrei o bilhete. Mas eles queriam uma passagem de volta para o Brasil. Inventei uma história — disse que atravessaria pela Amazônia, que faz divisa com o Brasil, de carro.
Em algum momento, eu mesma já não sabia exatamente o que estava sustentando aquela história. Mas precisava seguir viagem.
Ela acreditou. Eu entrei.
Não é possível!
Fui procurar uma foto de Krabi para ilustrar a edição e percebi que em todas as minhas fotos daquele dia, eu estava com a blusa no avesso.
Não é possível! Ahahah
Oito anos de viagem e a lista não para de crescer. Tem mais. Quer continuar na próxima edição?
A história completa das esculturas fálicas
Um encontro inusitado entre crença, desejo e… pênis de todos os tamanhos!
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É laboratório vivo, mesa compartilhada, gente que cruza meu caminho e me devolve a mim mesma.
Escrever sobre isso com honestidade, profundidade e uma pitada ocasional de acidez também é trabalho.
Um trabalho que eu escolhi manter aberto e caminhante, assim como eu.Agora, quem quiser apoiar esse percurso pode fazê-lo de duas formas:
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Ensaios sobre a CoragemObrigada por caminhar comigo, uma história de cada vez.




Hahahaha eu ri demais. E a camisa ao avesso
Não é possível: a única frase possível em muitas situações haha 🌼✨